um lugar onde a imaginação ganha cor
Encontrei na ilustração uma forma de expressão por excelência. Talvez porque sempre tenha existido em mim uma espécie de mundo paralelo, povoado por personagens, luas, árvores, animais, vestidos, casas, estrelas e histórias que não precisam necessariamente de muitas palavras para existir.
A ilustração nasceu, para mim, dessa vontade quase irresistível de dar cor àquilo que imaginava. De pegar numa história, numa emoção ou numa ideia e transformá-la numa imagem — como quem abre uma pequena janela para dentro de um mundo secreto.
E há elementos que regressam constantemente às minhas imagens, quase como personagens que insistem em aparecer de livro para livro: a Lua, as formas redondas, as espirais, os corações, as árvores, as flores, os pequenos seres e aquelas figuras de olhos simples que parecem estar sempre a sonhar.
A Lua, em particular, acompanha-me muito. Talvez porque tenha qualquer coisa de misterioso e de familiar ao mesmo tempo. Está lá em cima, silenciosa, a iluminar histórias, sonhos e aventuras. Nas minhas ilustrações, às vezes é enorme e ocupa quase todo o céu; outras vezes é apenas uma pequena presença. Mas está quase sempre a espreitar.
E depois há os círculos, as espirais e as formas arredondadas. Gosto das coisas que não têm princípio nem fim muito definido. As espirais aparecem como caminhos, mundos, pensamentos, sonhos ou simplesmente como um gesto que me apetece desenhar. É como se dentro de uma espiral pudesse caber uma história inteira.
As minhas personagens também foram ganhando uma identidade própria. São figuras simples, de corpos alongados ou cabeças grandes, olhos pequenos, bochechas coradas e, muitas vezes, um pequeno coração. Podem ser meninas, meninos, mães, pais, animais, viajantes, sonhadores ou criaturas que não sei bem definir. Gosto que tenham qualquer coisa de ingénuo e, ao mesmo tempo, profundamente humano.
Há nelas uma espécie de infância que não quero perder.
Talvez seja por isso que muitas das minhas ilustrações parecem viver num lugar onde a realidade e o sonho se encontram. Há meninas que voam, crianças que viajam para a Lua, gatos que conversam com o luar, árvores que parecem ter vida própria, casas que podem ser pequenas portas para outros mundos e personagens que caminham por paisagens que só existem porque alguém as imaginou.
Gosto de inventar mundos onde tudo é possível.
Na construção dessas imagens, divirto-me também a misturar técnicas e materiais. Uso acrílico, desenho, colagem, tecidos, botões, papéis, fios, texturas e pequenos objetos que encontro pelo caminho. Gosto dessa dimensão quase artesanal da ilustração — de acrescentar uma coisa que não estava prevista, de sentir a textura de um tecido, de colar um pedaço de papel, de transformar um botão numa flor ou um fio numa linha que conduz uma personagem.
É uma espécie de brincadeira séria.
E talvez seja precisamente aí que está a essência do meu trabalho: continuar a brincar.
Porque a criança que desenhava histórias, vestidos, personagens e mundos imaginários nunca desapareceu completamente. Continua aqui, algures, a pedir-me para experimentar mais uma cor, inventar mais uma personagem, desenhar mais uma lua.
Quando ilustro, sinto que volto a esse lugar.
Um lugar onde ainda não existem tantas regras. Onde uma árvore pode nascer azul, uma casa pode ter asas, uma menina pode carregar uma lua às costas e um gato pode ter uma cauda em espiral capaz de tocar as estrelas.
É um lugar onde a imaginação não precisa de pedir licença.
E é talvez isso que mais gosto na ilustração: ela permite-me construir uma ponte entre o mundo que vejo e o mundo que imagino.
Quero acreditar que, quando alguém olha para uma das minhas imagens, não vê apenas aquilo que eu desenhei. Quero que alguma coisa dentro dessa pessoa comece também a mexer-se. Que uma memória apareça. Que uma história se invente. Que surja um sorriso. Que, por alguns instantes, se esqueça da idade.
Porque é isso que procuro fazer: não apenas ilustrar histórias, mas criar pequenos lugares onde seja possível voltar a sonhar.
Talvez, no fundo, todas as minhas ilustrações sejam uma espécie de convite:
Entra. A história ainda não acabou. Podes continuar a inventá-la.
E gosto de pensar que, quando alguém entra nesse lugar, encontra um bocadinho da criança que todos fomos — e talvez também do artista que, em algum momento da nossa vida, todos tivemos dentro de nós.

















































