Pintura

Cruzar-me com a pintura surgiu quase por acaso, depois de fazer um curso de desenvolvimento pessoal baseado n’“O Caminho do Artista”, de Julia Cameron. Foi aí que comecei a perceber uma coisa que, embora pareça simples, mudou profundamente a minha relação com a criação:

Na arte – e talvez também em quase tudo na vida – não existem propriamente erros. Existem processos.

E essa ideia deu-me liberdade. Liberdade para experimentar, para fazer e desfazer, para misturar cores que aparentemente não combinam, para deixar uma pincelada onde antes pensava que não devia estar. Para não saber exatamente onde queria chegar. Para simplesmente começar.

Foi assim que comecei a pintar. Sem grandes certezas e, sobretudo, sem a preocupação de fazer “uma pintura bonita”. Comecei a aventurar-me entre tintas, pincéis, espátulas, texturas, manchas, riscos, transparências e materiais diferentes, deixando que a própria pintura me fosse dizendo por onde queria ir.

Às vezes começo com uma cor. Outras vezes com uma imagem, uma memória, uma sensação ou simplesmente com uma vontade quase física de colocar determinada cor na tela. E depois vou construindo. Sobrepondo. Tapando. Raspando. Voltando a descobrir aquilo que estava por baixo. Há qualquer coisa de arqueológico neste processo: “a pintura vai guardando camadas daquilo que fui sentindo enquanto a fazia.”

Talvez por isso apareçam tantas vezes azuis, vermelhos, rosas, terras e verdes…. O azul traz-me o silêncio, a distância, a água, o céu, aquilo que não consigo agarrar. O vermelho chega com mais força – é paixão, corpo, energia, inquietação, vida. O rosa aparece muitas vezes como uma espécie de delicadeza no meio de tudo isto. E as terras e os ocres trazem-me para a matéria, para o chão, para aquilo que é mais antigo e concreto.

Nas minhas telas há muitas vezes “horizontes, linhas, espaços, janelas, fragmentos e manchas”. Não são necessariamente paisagens no sentido tradicional. São antes lugares interiores. Espaços onde alguma coisa aconteceu ou está prestes a acontecer. Uma janela pode ser uma passagem. Uma linha pode separar dois mundos ou uni-los. Uma mancha pode ser simplesmente uma mancha — ou pode transformar-se numa memória, numa emoção, numa presença.

Gosto particularmente desse território entre o que é reconhecível e o que é apenas sugerido. “Não quero necessariamente contar uma história fechada. Gosto de deixar portas abertas para que cada pessoa encontre a sua própria história dentro da pintura.”

Por isso, algumas das minhas obras são mais silenciosas e contemplativas, enquanto outras são mais intensas, quase físicas. Há telas em que sinto que estou a respirar devagar e outras em que parece que estou a deitar cá para fora qualquer coisa que não sabia sequer que estava dentro de mim.

Uma tinta que escorre. Uma textura que aparece. Uma cor que se mistura inesperadamente com outra. Um risco que deveria ser apagado mas que, de repente, passa a ser essencial. “Aprendi a não corrigir tudo.” Às vezes, aquilo que inicialmente parece um erro é precisamente o que dá alma à obra.

É nesse momento que entro no “flow”. Quando estou verdadeiramente dentro da pintura, perco um pouco a noção do tempo. Deixo de pensar tanto e começo a sentir mais. O gesto torna-se intuitivo. O corpo participa. A mão escolhe quase antes de eu conseguir racionalizar a escolha. Estou ali, inteira, concentrada naquele instante.

Para mim, pintar é também uma forma de “atenção plena, de mindfulness”. É um espaço onde posso parar o ruído exterior e escutar aquilo que se passa cá dentro. As cores, as texturas e os materiais tornam-se uma espécie de linguagem. E, muitas vezes, sinto que não sou exatamente eu que conduzo a pintura. “É como se a pintura também conversasse comigo.”

Começo com uma tela em branco e, de alguma maneira, começo também a encontrar-me. Por vezes encontro uma emoção. Outras vezes encontro uma memória. Outras ainda encontro apenas uma cor que me dá prazer. E está tudo bem.

Não procuro a perfeição. Procuro “presença”. Procuro aquele instante em que deixo de tentar controlar e começo simplesmente a experimentar, a observar, a sentir.

A minha pintura é, por isso, muito mais do que colocar tinta numa tela. É uma conversa comigo própria. É um lugar de liberdade, de descoberta e de transformação. Um território onde posso experimentar sem medo, onde posso permitir que o acaso participe e onde aquilo que aparentemente estava “errado” pode tornar-se precisamente aquilo que faltava.

E talvez, no fundo, pinte também para me lembrar de uma coisa que aprendi com “O Caminho do Artista”: 






© artejoanagraca

powered by Wordpress