O que me inspira

Eugénio de Andrade in Vertentes do Olhar

O meu trabalho nasce de uma vontade muito profunda de me reencontrar — com a minha infância, com aquilo que sou e com todas essas partes de mim que nem sempre consigo explicar por palavras.

Pinto e desenho como quem vai juntando pedaços de memórias, sensações e emoções. Gosto de trabalhar com cores intensas e de experimentar diferentes materiais: acrílicos, tecidos, papéis, pastéis, vernizes e até algumas reacções químicas. Muitas vezes, é da mistura entre tudo isto que surgem texturas e imagens que não tinha imaginado.

Cada obra é uma forma sincera de dar espaço ao que sinto — à alegria e à tristeza, ao encantamento e à dor, aos sonhos, aos medos e às inquietações que me acompanham. Quando dou forma a essas emoções, sinto que consigo compreendê-las um bocadinho melhor e encontrar uma maneira de seguir em frente.

Tudo começou com a ilustração infantil e com duas personagens muito especiais para mim: uma menina e um menino sentados num baloiço da Lua.

A Lua é a minha cúmplice silenciosa. Desde pequena que me dizem que vivo “no mundo da Lua” e, em vez de tentar sair de lá, decidi fazer desse lugar a minha casa imaginária. É lá que gosto de sonhar, inventar histórias e criar novos mundos quando preciso de me afastar um bocadinho do mundo real.

A minha infância teve também um papel muito importante neste caminho. Guardo com muito carinho as histórias e os desenhos que o meu pai me oferecia e que foram alimentando a minha imaginação. São pequenas raízes que continuam presentes naquilo que faço hoje.

Mais tarde, a pintura abstracta trouxe-me uma sensação de liberdade que me apaixonou. Não preciso de começar com uma ideia completamente definida. Muitas vezes começo apenas com uma cor, um gesto, uma textura ou uma vontade qualquer… e deixo a pintura acontecer.

Gosto dessa parte em que não sei exactamente onde vou chegar. O erro pode transformar-se numa descoberta, uma mancha pode dar origem a outra coisa e uma ideia pode mudar completamente a meio do caminho.

Para mim, criar é também uma forma de me aproximar de mim própria, de confiar mais na minha intuição e de me abrir àquilo que ainda não conheço.

A minha arte é, acima de tudo, uma forma de expressão e de transformação. É onde posso falar das minhas emoções, das minhas dores e das minhas alegrias sem precisar de encontrar sempre as palavras certas.

E talvez seja isso que mais gosto naquilo que faço: pegar em coisas que vivem dentro de mim e transformá-las em qualquer coisa que possa ser partilhada com os outros — uma imagem, uma cor, uma história ou simplesmente uma emoção.

Se, ao olhar para uma das minhas obras, alguém sentir alguma coisa dentro de si, já valeu a pena.






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